sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O sonho

Ele surgiu nos meus sonhos. Estou no meio do nada. Aparece e caminha até mim... Sem pressa. Não me movo, estou hipnotizada.
Beija os meus cabelos, sente meu cheiro, deixando sua barba tocar meu pescoço bem de leve. Já não me pertenço. Seu magnetismo sobre mim é tão forte, que não ouso resistir.
Dando um rápido passo, ele se volta ás minhas costas e me diz coisas tão boas que sou incapaz de ouvir... Apenas sinto.
Agarrando-me pela cintura e sem parar de me afagar, sua mão esquerda se eleva até meu seio direito enquanto que a outra desliza até meu delta de Vênus.
Ele me toca... Ah, como ele me toca! E lambe minha orelha e sussurra no meu ouvido: “Te quero, te desejo e a partir de agora, você me pertence!”. Estou flutuando, meus olhos se fecham e eu me sinto febril, me sinto nua... Estou nua. O calor de seu corpo é pior do que o fogo! Com muito esforço, lhe digo para fazer o que quiser de mim, mas ele ainda hesita. Estou com sede. Sua boca me sacia. De mansinho, me beija. Um beijo demorado, porém sem lentidão. Um beijo apaixonado como os de despedida... Sei que preciso abrir meus olhos para não perder nem um minuto, nem um detalhe daquele sonho maravilhoso, mas não consigo acordar... Nem sei se quero!
Deixo-me levar pelas sensações que o toque de seu corpo junto ao meu, provoca. No lugar de todo aquele furor, meu coração sentiu certa tristeza. Tive medo de perdê-lo. Se fosse um sonho, não ia querer que aquele momento me fosse roubado. Chorei. Um misto de felicidade e melancolia...
Como se estivesse decifrando meu espírito, seus olhos também se encheram de lágrimas. Sabíamos que aquela era a última vez que nos veríamos... Naquela noite, no meu sonho tudo fazia e tudo era sentido: o vento sobre nossas peles, o deserto, uma noite sem lua, nós dois...
Ele me pega em seus braços. Abro os meus olhos. Me vejo em seus olhos. Me arrepio e seu corpo me acaricia. Nos amamos. Muito mais do que homem ou mulher ou gêneros diferentes ou almas congruentes ou simplesmente sexo. Éramos uma só pessoa! Eu era sua feminilidade. Ele, minha masculinidade e mesmo assim ainda éramos um só e nos amamos e deixamos o último sopro de vida se esvair de nossos corpos; sentimos a morte daquele doce delírio e gozamos! Dormimos abraçados, com medo de nos perdemos um do outro...
No horizonte, o Sol despontava. Seus raios agudos imitavam flechas contra meu rosto. Acordei. Ele não estava mais ao meu lado, havia sido um sonho.
Levantei da cama e, como de costume, me preparei para encarar mais um dia.
No caminho para o trabalho, parei numa banca de jornal para comprar cigarros. Distraidamente, comecei a ler uma notícia, num jornal qualquer onde um casal havia sofrido um acidente de carro.
O rapaz morreu na hora e, a namorada, ao saber de sua morte atirou-se no poço do elevador do hospital onde estava internada.
Ao ver a foto do casal, quase entrei em choque: éramos nós dois! A noite que passamos juntos foi, de fato, a última vez que nos vimos. Realmente, havia sido nossa despedida...

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