sexta-feira, 29 de junho de 2007

O côncavo e o convexo

Rodolfo. Esse era o seu nome. Tinha no olhar um ar boêmio, que ressaltava ainda mais o infinito azul de seus olhos. A pele branca contrastava com o ébano de seus cabelos, que insistiam em cair sobre a testa, larga e sempre franzida, dando a impressão de ser um grande pensador.
Falava muito bem. Aliás, a boca era um de seus maiores atributos…lembrava uma cereja estalando de madura ! E quando bebia água, os lábios úmidos lembravam cerejas em calda ! Seu corpo atlético e bem definido, conferiam-lhe um porte elegante e vigoroso, viril !!! Era muito atraente, um “Adônis” !!!
Mas, sua beleza não compatibilizava com sua personalidade…era um cafajeste ! Adorava cobiçar as mulheres comprometidas e mocinhas de família, alegando que mulheres difíceis são melhores de se degustar ! Não valorizava o trabalho, não pensava no futuro e não se interessava em formar família.
Vivia por gastar a herança deixada por seus pais, em noitadas com amigos e meretrizes. E sem a mínima cerimônia, passeava bêbado pelas ruas à hora em que todos ainda desfrutavam o café da manhã.
Numa noite qualquer, acometido por forte indisposição, decidiu ficar em casa, dormir mais cedo. Acordou. Resolveu caminhar, respirar o ar puro matutino e ver as cores que o sol revelava.
Caminhava vagarosamente, observando bem as pessoas, principalmente as senhoras. De repente, avistou uma mão delicada, na qual pendia uma pulseirinha. Lurdinha. Era esse o nome que reluzia na pulseira.
Ela era uma moça doce, ingênua e muito bonita também. Tinha uma beleza natural e altiva. Os olhos, tão negros quanto a pele, expressavam dor e tristeza. O corpo era quase infantil, denunciando a pouca idade, porém aos olhares masculinos, era uma ninfeta pronta para devorar e ser devorada !!!
Não tinha amigos, nem família. Seus pais haviam morrido quando ela ainda era um bebê. E assim, passara os últimos quinze anos num orfanato, trabalhando sem parar, em troca de comida e moradia.
Rodolfo se encantou ! Seus olhos brilhavam como quando um predador avista sua presa. Decidiu que ela seria sua próxima conquista !
Planejava passo a passo tudo o que faria para conquistá-la. Passava noites inteiras acordado pensando nela… “Lurdinha, Lurdinha”!!! Era a única palavra que saía de sua boca, como se implorasse por socorro. Ficou tão obcecado, que se furtava até do prazer da boemia, esperando o dia amanhecer para revê-la, mesmo que fosse por alguns instantes.
Lurdinha levava uma vida pesarosa no orfanato. Ficava imaginando como seria bom ter liberdade, sair, passear sem ter hora para voltar… Não conversava com ninguém. Queria ver as pessoas, ver as modas… então, numa dessas noites sem luar, decidiu fugir, pretendendo retornar mais tarde.
Na rua havia muito movimento, um circo acabava de chegar e as pessoas corriam para ver as atrações ! Lurdinha estava encantada ! Tomou sorvete, comeu uma maçã caramelada, fingiu que era adulta, fingiu que era amada…
As horas passaram rapidamente, ela constatou o relógio e viu que era hora de voltar. O caminho estava escuro e deserto, não havia mais ninguém a não ser ela e sua sombra…
- O que um pitelzinho como a senhorita faz por aqui, tão tarde e sozinha ?
- Desculpe, senhor… Não posso falar com estranhos !
- Acabou de falar… Posso te acompanhar até tua casa, te proteger e, quem sabe, te conhecer melhor ?
- Não é preciso ! Até logo !
- Não precisa correr ! Eu me chamo Rodolfo e já te conheço… Sei que teu nome é Lurdinha !
- Não se aproxime ou chamarei a guarda !!!
Rodolfo insistiu e Lurdinha tentou correr, sendo logo impedida por ele.
- Não se preocupe, serei delicado…
Ele a arrastou até sua casa sob gritos esganecidos e arranhões. Amarrou-a na cama e rasgou suas roupas com voracidade, numa fúria incontrolável, até achar a pele negra, brilhante e sedosa que se escondia em baixo delas. Admirou seus seios túrgidos de pavor e medo… os mamilos rijos pareciam gotas frescas de chocolate … observou atentamente o símbolo de sua feminilidade, tão pequeno e tão frágil, revelando uma rica matiz de cores que variava da cor rosa ao negro, sublime e intenso, demarcando sua pureza !
Contemplando cada milímetro de pele, enrijeceu-se. Salivou, quis provar o gosto de Lurdinha. E como era doce !!! Sugou-a como se quisesse absorvê-la por inteiro !!!
Por entre suas pernas, um demônio enfurecido rasgava-lhe o tecido da calça cada vez que ela lhe implorava por piedade. Beijou-lhe o corpo todo e ficou divagando entre um seio e outro. Lurdinha não tinha mais forças para reagir e deixou que ele fizesse o que queria.
Rodolfo hesitou por um instante. Como era linda ! Olhava-a com tanto desejo, com tanta admiração que quase perdeu a coragem de possuí-la. Beijou-lhe a boca carnuda sob protesto, mas mesmo assim pôde sentir a maciez de seus lábios e, como que enraivecido, penetrou-a com furor e violência !!! Ela soltava gritos de dor que o levavam ao êxtase, atingindo o seu momento de glória, o clímax esplêndido, inebriante e solitário…
- Perdoe-me…
- Por que ?,,, Por que fez isso ?!
- Nem eu sei… Só queria te beijar, ficar com a senhorita… Queria que fosse só minha !!! Nunca fiz isso com mulher alguma ! Eu não sou um canalha, nunca bati ou feri alguém, principalmente uma mulher !!!
- Então por que fez isso comigo ?! O que que eu te fiz ?! Nem conheço o senhor… O senhor tirou o que eu tinha de mais precioso !!! Não é justo !!!
- Pelo amor de Deus, me perdoe! Sei que não sou “flor-que-se-cheire” , mas não queria te machucar ! Quando fugiu de mim, senti-me desafiado e me descontrolei…
Chorando baixinho, ela vestiu o que ainda restava de suas roupas e foi embora. Ele ficou pensando no ocorrido, se arrependeu e também chorou. Lurdinha não dormiu. Pensou no acontecido, pensou em sua vida… Não tinha família e nem amigos, vivia da caridade obsoleta das freiras do orfanato e achou que se tudo isso tinha acontecido com ela, era por pura vontade de Deus ! Rodolfo visitou seus pensamentos e, pela primeira vez, ela pôde perceber o quanto ele era bonito. Sentiu uma estranha sensação percorrendo-lhe o corpo e pairando sobre sua intimidade.
No dia seguinte, Rodolfo não quis sair. Sentia-se um covarde…amedrontou-se ao pensar que Lurdinha poderia tê-lo denunciado a polícia. Decidiu se isolar. Ao contrário do que tinha pensado, ela não o denunciou.
A campanhia tocava insistentemente. ” Danou-se ! É a polícia ! Se fugir serei caçado; se me entregar serei preso ! O que faço ?!”
- Moço ! Moço !!! Tem alguém aí ?!
Rodolfo abriu a porta e se espantou com o que viu !
- Não acredito !!! O que a senhorita faz por aqui ?!
- Preciso conversar…eu…eu fugi do orfanato !
Estupefato, deixou que ela entrasse e embora tivesse medo, tranqüilizou-se. Após longas explicações e desabafos, ela disse que não queria mais aquela vida, que pretendia morar com ele e que faria o que fosse preciso para ser aceita.
Rodolfo teve vontade de expulsá-la, achando que tudo não passava de uma armadilha, mas logo viu que tudo o que ela dissera era verdadeiro, então, conteve-se.
-Eu lhe fiz mal…te violentei e mesmo assim quer morar comigo ! Como pode ?!
- O senhor leva uma vida desprezível igual a minha ! Reconheço que a tua tristeza e a minha são as mesmas! O que aconteceu ontem foi apenas o encontro de duas almas igualmente perdidas…
Confuso, ele resolveu sair. Ela teve o estranho desejo de beijá-lo.
Com o tempo, acostumaram-se um com o outro. Ele passava noites inteiras se embriagando e ela cuidava dos afazeres domésticos. Quando ele chegava bêbado em casa, ela o ajudava a se trocar. Não se falavam. Ele não tinha coragem de encará-la, sentia um enorme remorso por tê-la violentado. Ela, contrariamente, ficava entre a compaixão e o desejo. Sentia um forte desejo de ser possuída por ele novamente, ao mesmo tempo em que tinha piedade por vê-lo sofrendo sem necessidade, já que estava ali por vontade própria.
Numa noite tempestuosa e fria, numa das raras noites em que Rodolfo não saía, Lurdinha sentiu medo e foi até seu quarto para pedir apoio e se sentir segura. Ele dormia tranqüilamente. Ela olhava seu corpo. O peito musculoso e nu, seus braços fortes, o abdomên bem definido, com poucos pêlos…um calor invadiu seu ser… Ela se tocava. Tocava partes do próprio corpo que nunca tinha tido coragem de tocar antes ! Arrepiou-se…Ah! Como o desejava ! Despiu-se lentamente e deitou-se ao seu lado… Começou a acariciar seu corpo até sentir sua virilidade, sufocava de prazer !!!
Rodolfo acordou e, entendendo a urgência daquele momento, beijou-a lascivamente. Ela sentiu na pele o roçar daquela barba por fazer e se eriçou ! Perdia os sentidos com o cheiro daquele homem e apenas deixou-se levar por aquela sensação entorpecente. Ele percorria seu corpo como se conhecesse cada parte e como se soubesse qual toque merecia cada uma delas ! Ela desfalecia, se entregava , sentindo que sua alma se esvaía por entre suas pernas. Ele tocava-lhe a flor urgente, com a precisão de um mestre até que o milagre aconteceu : Ela sentiu ! Sentiu-se toda, sentiu que estava fora de si, fora de seu corpo e deixou sua alma falar por ela …Ali estava a mais nova fêmea, que acabava de se revelar por inteira, em sua mais pura essência ! Eles eram um só ao tempo que não eram nada, apenas duas almas se contemplando, se amando, vivendo e morrendo um nos braços do outro, como se nada mais existisse no mundo.
O dia amanheceu cinzento e mais silencioso do que de costume… Não se escutava o gorjeio dos pássaros e nem o mexer das folhas das árvores. Lurdinha acordou. Rodolfo não estava . Resolveu tomar um longo banho quente e depois preparar o café da manhã . Se demorou um pouco mais na cama, levantou e foi até o banheiro, quando se deparou com uma cena chocante : Rodolfo havia cortado os pulsos e ainda agonizava .
- Por favor, não morra ! Não quero ficar sozinha de novo !
- A senhorita é uma boa moça… Eu não tinha o direito de fazer o que fiz ! Eu não te mereço, não presto…por favor, perdoe-me !
- Não ! Não te perdôo ! Te agradeço ! O senhor me libertou… libertou-me de mim mesma e eu o amo por isso !!! Te amo como nunca pensei que pudesse te amar algum dia !!!
- Que bom que a senhorita me ama, porque eu a amei desde o primeiro segundo em que a vi, nunca consegui esquecê-la e foi por isso que eu a violentei ! Deixei que meus sentimentos fossem mais fortes do que minha razão ! Eu a amo e por esse motivo peço-lhe que me liberte agora de meu sofrimento…seja feliz e feliz eu morrerei !
Num gesto amoroso, Lurdinha lhe beijou pela última vez, Rodolfo a olhou e sorriu. E permaneceu assim, sorrindo imóvel, sorrindo para sempre, morto. Desesperada, Lurdinha fugiu e nunca mais se ouviu falar dela . Soube-se apenas que tinha se tornado meretriz…

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