Estava morta . Abriu os olhos . Olhou em volta e pelo que percebeu, estava numa espécie de “mesa - redonda” .
- Sente-se e me diga o que houve !
- Suicídio… - Nesse instante, fez-se um silêncio mortal e Lúcia começou a contar sua história.
” Sou a filha mais nova de uma família de três irmãs. Meu pai sempre quis ter um filho, para herdar suas habilidades nos negócios e seu talento com as mulheres e sua única esperança era que eu nascesse homem, mas como podem ver, isso não aconteceu.
Embora seu desejo não fosse realizado, meu pai nos tratava com muito carinho, até porque ele adorava as mulheres ! Sentia que sem elas a vida não tinha graça, dizia que foi a melhor coisa que Deus criou ! Minha mãe gostava disso, mas não gostava nem um pouco do tratamento um tanto meloso que ele dava às outras mulheres. Se amavam muito, mas ela dizia que meu pai era um perfeito mulherengo e que já havia pulado a cerca várias vezes, antes e durante o casamento. Lembro-me dela… Era uma pessoa rígida, porém amável… também era muito bonita. Ela morreu quando eu tinha cinco anos. Sem estrutura para cuidar de três filhas, meu pai nos mandou para um colégio interno, e por lá eu fiquei até completar meus estudos e adquirir a maioridade.
Quando voltei, ele estava muito doente. Após a morte de minha mãe, ele perdeu o brilho e a vontade de viver, passando a beber todos os dias. Logo que cheguei de viagem, recebi seu recado do hospital, precisava vê-lo com urgência.
- Lúcia, querida ! Como você cresceu, está tão parecida com sua mãe ! - Segurando uma lágrima, mostrei-me feliz e despreocupada e deixei que ele falasse.
- Minha querida ! Tenho tanto pra lhe contar… Se você soubesse o quanto seu velho pai não presta, não estaria aqui! Sou um canalha, a vida inteira sempre fui um canalha… Me arrependo tanto de não ter sido o homem que sua mãe merecia… - Nesse momento, ele começou a ter um acesso de tosse, dando uma longa pausa na conversa. Quis gritar e chamar um médico, estava muito nervosa, aliás, qual é a filha que não ficaria nervosa vendo o pai morrer ?!
- Não se preocupe, querida ! De um jeito ou de outro sei que vou morrer e, sinceramente, isso não me assusta ! Preciso muito lhe contar a verdade…eu…
Sentindo a cabeça rodar, por causa do estado penoso em que meu pai se encontrava, não permiti que ele continuasse e para meu alívio, a enfermeira chegara para anunciar o fim da visita.
Voltei pra casa, arrumei minhas coisas, mas não conseguia acreditar que meu herói, meu pai estava morrendo ! Naquele mesmo dia, me deram a notícia de que ele havia falecido…
Não me surpreendi… No enterro nem consegui chorar de tanta tristeza e contei para minhas irmãs o que havia acontecido, mas como era de se esperar, elas acharam que ele estava delirando por causa da febre . Tratei de esquecer tudo e cuidar de minha vida, por isso me mudei e fui morar em outra cidade.
De início, foi muito difícil me estabelecer e arrumar um emprego, mas o destino pôs no meu caminho pessoas maravilhosas, que cuidaram de mim e me aceitaram como uma filha ! Era uma família pobre, mas farta e um pouco menor do que a minha costumava ser. Dona Adelaide cuidou de seus dois filhos sozinha, mas graças à Deus, todos eram honestos e tinham boa educação. De seus dois filhos - um casal - me apeguei mais a Gustavo, que assim como eu, era o mais novo . Beth também era uma boa pessoa, mas não tínhamos muitas coisas em comum, volta e meia, ela vivia dizendo que eu traria problemas e que não era uma boa idéia me deixar tanto tempo conversando com Gustavo . Ele era um amor de pessoa : era doce, brincalhão, forte, bonito, inteligente… era realmente um homem encantador que sabia como agradar uma mulher ! Me apaixonei perdidamente, mas mantive essa paixão em segredo por achar que ele me via apenas como sua “irmãzinha”.
Com o tempo, fui ficando cada vez mais independente e conforme os dias se passavam sentia minha paixão aumentar ! Via Gustavo sair toda semana com uma garota diferente e isso cortava meu coração, então tratei de me afastar dele, mas não adiantou! A gente não escolhe a quem amar, não é mesmo ?!”
Enquanto Lúcia contava sua história, ouviam-se alguns cochichos e respirações mais profundas, como se as pessoas quisessem lhe falar, até que uma delas perguntou :
- Por que a senhorita não se afastou de vez ao saber que ele não era um rapaz que merecesse seu amor?
- Como eu disse anteriormente, nós não escolhemos a quem amar…
- Mas, a senhorita sabia do risco que estava correndo ao se apaixonar por ele, não ?
- Sim, eu sabia e mesmo assim continuei apaixonada e não pude evitar ! Mesmo sabendo que ele não prestava, mesmo sabendo que o meu amor nas mãos dele não passaria de um joguete, mesmo sabendo que eu poderia ser mais uma…
Um longo suspiro (talvez de reprovação !), se ecoou depois, o mesmo silêncio tomou conta de tudo, como que consentindo que Lúcia continuasse.
” Um dia, cheguei do trabalho muito cansada e sem me sentir muito bem. Tomei um banho e logo me deitei. A casa era de uma tranqüilidade quase absurda e eu não notei que ele estava, pois geralmente,só chegava depois da meia-noite. Deitada na cama, pensando nos acontecimentos do dia, senti uma mão suave acariciar meus cabelos. A princípio, pensei que fosse dona Adelaide, mas logo percebi que era ele ! Perdi o fôlego e me mantive imóvel, tentando fazer com que aquele momento durasse…
- O que você tem, Lucinha ?! Há dias que não fala comigo…
- Nada… só estou cansada, tenho trabalhado muito… - Respondi com algum esforço.
- Sabe, se eu não a considerasse minha irmãzinha, juro que me casaria com você !
- Por que ?! - Meu coração quase saltava pela boca !
- Você ainda pergunta ?! Te acho linda, meiga e inteligente, a mulher perfeita pra casar !!! E além do mais, me surpreende o fato de que ainda não tenha saído com nenhum garoto desde que chegou aqui!
Nesse instante fui a pessoa mais feliz desse mundo e não consegui responder mais nada . Ficamos nos olhando durante algum tempo e através do meu olhar mostrei a ele que o amava… Ele continuou me olhando fixamente, acariciando meus cabelos e foi então que nos beijamos ! Foi um beijo longo e suave… meu primeiro beijo em vinte anos de existência !!!
Como tudo que é bom dura pouco, senti que alguém nos olhava e quando me virei, vi a cara de desaprovação de Beth ! Foi a gota d’água ! Rapidamente, Gustavo se levantou e os dois foram conversar a sós no quarto ao lado. Morta de vergonha e deseperada com o que aconteceria a seguir, comecei a chorar, até que dona Adelaide chegou.
- O que houve minha filha ?! Por que tantas lágrimas?
- Eu fiz uma coisa horrível e temo que a senhora não me queira mais em sua casa…
Beth saiu do quarto e contou tudo a ela . Fazia questão de enfatizar que eu não prestava e que ela sempre soube disso e exigia que dona Adelaide tomasse uma decisão ! Sentindo um nó na garganta, fiquei calada… na verdade, depois que tudo foi dito pela “terrível” Beth, não se ouviu uma palavra e o rosto de dona Adelaide não expressava nada .
- Sabe, minha filha, ás vezes eu acho que você tem inveja da Lucinha… Eu faço muito gosto que ela e seu irmão namorem, pois sei que ela é uma moça trabalhadora e direita !!! E pra encerrar esse caso, acho que você também devia arrumar um namorado, em vez de ficar tomando conta da vida dos outros !!!
Pronto ! Esse foi o tiro de misericórdia que Beth precisava !!! Como foi bom ouvir aquilo! Ela saiu muito brava e eu fiquei aliviada e ao mesmo tempo, sem jeito . Não esperava que dona Adelaide dissesse isso, mas para minha total falta de jeito, ela ainda disse que já sabia que eu o amava há muito tempo !
Gustavo não disse mais nada depois do acontecido… ficou me evitando por dias. Me senti uma idiota e cheguei a pensar que aquele beijo tinha sido a pior coisa que me aconteceu, mas, felizmente, o tempo me provou o contrário ! “
- Você sabia o motivo pelo qual Beth não simpatizava com você ?
- Sinceramente, não ! Achei que era só ciúme… talvez pela mãe dela gostar de mim .
- Você não pretendia causar a discórdia entre mãe e filha ?
- Não !!! Eu não pensei nisso e essa não era a minha intensão !
- Por que que a senhorita não se afastou do rapaz quando viu que esse sentimento traria problemas para ele e para você ?!
- Eu não queria me afastar dele… - Lúcia começa a chorar, mas se recompõe e continua a falar.
- No fundo eu sabia que talvez não fosse uma boa idéia, mas eu quis tentar e fiz de tudo para que esse amor valesse à pena ! Os senhores podem me condenar, mas eu não me arrependo de nada !!!
Pelo que se ouvia, muitos deles desaprovaram as últimas palavras de Lúcia . Ela estava muito nervosa e se sentindo uma idiota ! Não sabia o que esperar e francamente, achava aquilo tudo uma babaquice, mas decidiu manter sua postura, se teve uma coisa que aprendeu enquanto era viva, foi ser educada com as pessoas.
- Pode continuar, moça . - Falou uma mulher .
” Continuei seguindo com minha rotina e apesar de ver Gustavo pouquíssimas vezes, pude perceber que ele estava muito quieto e já não saía mais com outras garotas . Fiquei feliz, mas achei estranho, pois sei que mesmo tendo me beijado ainda me considerava sua “irmãzinha” e ainda nutria por mim um certo respeito, o que de certo não mudaria as coisas . Aquela incerteza e o afastamento dele me deixaram atordoada, então resolvi encostá-lo na parede e esclarecer de uma vez por todas aquela história .
- Eu preciso falar com você ! - Falei decidida.
- Não posso conversar agora, preciso sair… - Falou Gustavo com ar de desprezo
- Acho melhor conversarmos, pois daqui a alguns dias você não me verá nunca mais ! - Ameacei .
- Como assim ?! Você vai embora ? Pra onde? Com quem ?
Ao notar que ele ainda se preocupava comigo, me senti mais calma e contei tudo o que estava acontecendo. Declarei meu amor e ele simplesmente não disse nada . Ficou parado, ouvindo e me olhando nos olhos… ah, aqueles olhos verdes !!! Jamais poderei esquecê-los… Eles me diziam tanta coisa, me diziam o quanto ele me amava e nós não pudemos resitir um ao outro …
- Gosto do cheiro dos teus cabelos e dos teus olhos negros…
- Gosto dos teus olhos verdes e das tuas mãos me acariciando…
- Amo o teu sorriso de menina e a tua beleza selvagem…
- Amo a tua barba por fazer arranhando minha pele…
Naquele momento tive a certeza de que ele me amava e me entreguei, ou melhor, nos entregamos àquele amor que há tanto tempo nos esperava . Aquelas mãos ásperas tocando meu corpo de uma forma tão suave, seu cheiro de homem, seus beijos… Sentia-me entorpecida com cada gesto, cada beijo que ele me dava! Ele tirou minha roupa sem que eu sentisse… Meu sexo foi tocado pela primeira vez e eu me libertei ! Deixei a fêmea que existia em mim, aflorar ! Ele me tocava com a boca, com as mãos, com os olhos… E de uma vez só, pude saber o que é a dor e a delícia de ser mulher ! Ele me penetrava com seu espírito ! Nos unimos de corpo e alma, nos transformamos num só !
Depois de algumas semanas, assumimos nosso namoro . Dona Adelaide nos deu sua bênção e Beth nos deu seu desprezo, mas estávamos tão felizes que não importava o que as pessoas falassem, o que importava simplesmente era o que sentíamos um pelo outro : o nosso amor !
Continuei morando na casa dele, mas por respeito a dona Adelaide, dormíamos em quartos separados . Lógico, que nos encontrávamos às escondidas enquanto todos dormiam…
- Como isso foi acontecer ?! - Resmungou dona Adelaide .
- Acontece do jeito que acontece ! - Falou Gustavo com uma certa ironia .
- O que as pessoas vão dizer, meu Deus ?!
- Desculpe, dona Adelaide ! Eu não queria que as coisas acontecessem desse jeito!
- Mãe, não se preocupe… nós vamos nos casar !!!
Para meu espanto e o de dona Adelaide, ele realmente estava falando sério a respeito do casamento . Para quem saía toda semana com uma garota diferente, ele havia mudado muito e isso me agradou, pois sabia que a causa daquela mudança significava que o seu amor por mim era verdadeiro !
Decidimos nos casar no cartório . Seria mais rápido e dona Adelaide achava melhor, porque moça de família não podia aparecer grávida antes do casamento .
Um estranho nevoeiro pairou sobre a sala, fazendo com que todos interrompessem a reunião . Lúcia foi para uma outra sala, onde outras pessoas também estavam na mesma situação que ela . Ouviu relatos emocionantes e outros tão tristes quanto o seu, também havia muita gente gritando . Mas, no meio daquela confusão sentiu algo estranho e particularmente familiar… Sentiu um frio na espinha, um aperto no coração e quando viu era Gustavo !!! Seu grande amor estava lá e assim como ela, também esperava para participar da tal mesa-redonda . No momento em que se aproximavam um do outro, ela foi impedida por uma força misteriosa e transportada novamente para a sala anterior .
- Você sabia que esses encontros às escondidas acabaria resultando numa gravidez, certo ?
- Eu sabia, mas na hora não pensei que isso pudesse acontecer, a minha intensão não era engravidar !
- Se a senhorita sabia, por que não se previniu ?! Por que não parou com esses encontros ?
- Que espécie de pergunta é essa ?! Que tipo de gente ou sei-lá-o-que vocês são ?! Será que nunca amaram ninguém ?! - Vociferou Lúcia
- Não se altere, moça ! Apenas responda as perguntas .
- Eu não quis esperar, tá legal ?! Eu estava apaixonada e queria dar pra ele o tempo todo ! Será que isso basta ? - Lúcia senta e chora, inconformada com aquela tortura ela recomeça a falar.
” Eu mandei uma carta para avisar as minhas irmãs e pedir a elas que enviassem alguns de meus documentos para que o juiz pudesse nos casar . Em uma semana, elas já haviam chegado e, eu fui buscá-las com Gustavo.
Qual não foi minha surpresa, elas o adoraram ! Levei-as até a casa de dona Adelaide, onde almoçamos e conversamos para que elas conhecessem melhor a minha nova família . Eu era só felicidade, como há muito tempo não era ! Eu e o meu amor havíamos marcado de entregar nossas certidões de nascimento assim que minhas irmãs chegassem .
No caminho, tive a curiosidade natural que toda mãe tem : quis saber qual seria o nome de nosso filho ou filha ! Fizemos um acordo . Eu escolheria o nome de uma menina e ele escolheria o nome de um menino . Chegamos no cartório e entregamos nossos documentos para marcar a data .
- Sinto muito, mas vocês não podem se casar !
- Que é isso ?! Eu sei que minha mulher é linda, mas não precisa impedir o casório, seu juiz ! - Gustavo estava tão animado que não levava nada a sério.
- Não é brincadeira, rapaz ! Aos olhos do homem e de Deus vocês não podem se casar !
- Por favor, seu juiz, diga o que impede nosso casamento ?!
O juiz nos entregou as certidões e então percebemos o erro : o meu pai e o dele eram a mesma pessoa ! Desmaiei na mesma hora e quando acordei já estava no hospital .
Gustavo estava chorando ao meu lado e então pude perceber o que havia acontecido : o choque daquela revelação tinha sido tão grande que eu acabei perdendo a criança !
Naquele momento, não soube como reagir, não conseguia acreditar que havia me apaixonado pelo meu próprio irmão, não podia acreditar que estava passando por aquele pesadelo e que a revelação que meu pai queria fazer em seu leito de morte poderia ter me salvado se não fosse a minha falta de coragem ! Todos à minha volta me olhavam com pena e censura e Beth foi a primeira a dizer que eu não prestava ! Talvez, se eu tivesse prestado atenção ao que ela dizia, muita coisa não teria acontecido, mas ninguém passa pelo o que a gente tem que passar e assim, decidi ter uma conversa séria com Gustavo . Seria difícil encará-lo, mas teria que ser feito…
- Gu… sei que esse é um momento difícil e …
- Eu ainda te amo ! Não como irmã, mas como mulher …
- Não podemos ! Deus nos castigaria e as pessoas nos condenariam ! É melhor eu ir embora e tentar esquecer o que houve entre nós !
- Como ?! Eu não posso esquecer que ainda te amo !!! E também não posso esquecer que você é … que você é minha irmã !!! - Gustavo socava a mesa e as lágrimas rolavam de seu rosto feito uma cachoeira .
- Não se desespere ! O que está feito, está feito ! Temos que esquecer e nos separar !
- Você não me ama mais ?
- Será que você não entende ?! Nós não podemos continuar com isso ! É contra a lei de Deus ! - Comecei a chorar . Queria muito que tudo aquilo fosse um terrível engano ! Eu ainda o amava exatamente como no início de tudo e sem o menor sentimento de culpa ! Ainda o amava como homem, meu homem …
- Você ainda me ama ou não ?
- Sim !!! Eu ainda te amo e muito !
- Então vamos fugir ! Vamos pra outra cidade onde ninguém nos conheça, vamos começar vida nova e nos amar !!! A gente finge que nada disso aconteceu !
- Mas e a sua família ?!
- Não quero saber disso agora ! Estou disposto a arriscar tudo … só pra ficar com você !
Não questionei mais nada e pude ter a certeza concreta de que aquele amor, além de ser totalmente inadmissível era incondicional e não adiantava lutar contra um sentimento tão forte que rompe qualquer barreira . “
- Nós ouvimos o depoimento do rapaz envolvido, mas ainda não chegamos à uma conclusão ! Precisamos que conte sua versão da história até o fim para que possamos decidir qual será o seu destino !
Lúcia ficou, de certa forma, feliz por saber que seu amor estava no mesmo lugar que ela e tão perto . Tentou pedir para vê-lo, nem que fosse por um segundo e soube que Gustavo havia feito o mesmo pedido .
Seu coração batia aceleradamente, o ar lhe faltava nos pulmões e embora estivesse passando por uma situação delicada como aquela, não conseguia entender como seu corpo, ou melhor, seu espírito ainda lhe transmitia essas sensações, então concluiu que seu amor por ele era mais forte do que qualquer coisa ! Não precisava estar ali, dando explicações para pessoas que não conseguia ver, pessoas que pareciam tão frias e incapazes de amar ! Tentou fugir e gritar para seu amor que estava por perto, mas foi impedida ! Algo a prendia e sentindo agulhadas por todo corpo, sentiu-se zonza e foi obrigada a se acalmar .
- Desculpe-nos, mas você nos obrigou a ter esse tipo de atitude ! Geralmente, essas coisas não acontecem ! Falou uma voz com tanta autoridade que Lúcia pensou que deveria ser o chefe-dos-sei-lá-o-que ! Tranqüilizou-se e quis saber porque não poderia ver Gustavo .
- Não podem se ver porque não é possível, nós queremos ouvir a sua versão . Portanto, se está se sentindo bem pode continuar !
Se sentindo um pouco tonta e com certa dificuldade pra falar, Lúcia continuou :
” Depois da conversa que tivemos, arrumei minhas coisas para fugirmos no meio da noite . Ao mesmo tempo em que me sentia feliz, alguma coisa dentro de mim me dizia que aquela viagem seria a última, que alguma coisa ruim estava por vir … Minhas irmãs partiram logo assim que eu saí do hospital, voltariam um tempo depois para resolver as questões jurídicas, como a nova divisão da herança que meu pai nos deixou . Apesar dos pesares, elas gostaram muito dele e de dona Adelaide e, como eu supunha, não foram muito com a cara de Beth, mas decidiram tentar se conhecer melhor . Insistiram muito para que eu fosse embora com elas, mas eu estava me sentindo tão fraca que decidi partir assim que me sentisse melhor .
Gustavo quis fazer a mesma empreitada que fazíamos antes : esperar todos dormirem para nos aconchegarmos um nos braços do outro, fiquei um pouco apreensiva, mas acabei aceitando, estava com saudades e precisava de apoio para não me sentir tão carente .
Enquanto dormíamos, Beth, a malvada, acordava dona Adelaide para mostrar o quanto eu era sem-vergonha, e, a pobre coitada ficou em choque quando nos viu dormindo abraçados !
- Vocês não tem vergonha, não é ?! Deus vai castigá-los e vocês vão arder no inferno !!!
Acordamos com essas palavras… Imediatamente, Gustavo tentou explicar o que estava acontecendo, mas no fundo sabia que o que sentíamos não tinha explicação e que algum dia sua mãe teria que aceitar os fatos. Beth se aproveitou do momento em que ele falava com dona Adelaide e voou pra cima de mim como uma besta enraivecida ! Gustavo se virou e a empurrou no chão, fazendo com que ela batesse a cabeça na quina da mesa de cabeceira, morrendo instantâneamente ! Emudecemos…
- Assassinos ! Assassinos ! Vocês mataram minha filha, seus desgraçados !!!
Voltei ao meu estado normal, vi o sangue de Beth e dona Adelaide chorando junto ao corpo . Gustavo pegava nossas coisas e algum dinheiro para fugirmos, eu não conseguia me mover… Quando saímos, toda a cidade nos aguardava ! Pensei que seríamos linchados, mas o povo estava curioso para saber o que estava acontecendo em casa, na verdade eles queriam ver sangue e nesse caso não seria o nosso !
Fugimos para bem longe e conseguimos ter um pouco de paz durante algum tempo. Vivemos em lua-de-mel e sem nos lembrar do passado, planejávamos construir uma família e nos amar pelo resto de nossos dias ! Foi assim, nessa incrível tranqüilidade que vivemos até sair nossa história nos telejornais ! Fugimos de cidade em cidade, para não nos prenderem pela acusação de assassinato, mas como os senhores devem saber, tudo na vida um dia cansa e eu me cansei de fugir !
Gustavo dizia que não entregaria os pontos tão fácil e que para nos pegarem teriam que enfrentar as balas de seu revólver, só que cada vez mais o cerco se fechava e eu resolvi tomar uma atitude :
- Eu te amo e nada e nem ninguém nesse mundo vai mudar isso !
- Eu também te amo muito !
- Nesse caso, acho melhor provarmos nosso amor, um pelo outro, não acha ?!
- Sim, eu concordo, mas acho que se estamos correndo todos os riscos pra ficarmos juntos isso deve significar alguma coisa, não ?!
- Gustavo, eu não agüento mais fugir…
- O que você quer dizer com isso ?! Por acaso acha que devemos nos entregar à polícia ?
- Não, não é isso ! Eu não quero viver fugindo… nosso amor precisa de paz…
Contei a ele o que sentia e sugeri que fôssemos para um lugar bonito e deserto . A princípio, ele não achou a idéia muito agradável, mas depois aceitou.
- Se é preciso fazer esse sacrifício para ficar ao seu lado, pois então que seja feito ! O mundo nunca entenderá o nosso amor… Somos irmãos, de fato, mas ao meu ver, eu sou teu homem e você é minha mulher, eu te amo, você me ama e nada mais importa !!!
Depois de ter dito isso, ele abriu uma garrafa de champagne . Nos beijamos do modo mais sincero e carinhoso que um casal pode se beijar ! Fizemos amor, vimos o nosso último nascer do Sol e brindamos a nossa eternidade, a eternidade da nossa felicidade… “
- Onde eu estou ?! por que não posso ver nada ?! Quem são vocês ?!
- Lúcia, eu sou o doutor Filipe e você está …
- Cadê meu marido, eu quero falar com ele !!!
- Calma ! Você não pode sair daqui até terminarmos com os exames !
- Quero saber o que houve e por que estou aqui…
- Você e seu irmão tentaram se matar ! Infelizmente, você foi a única que sobreviveu…
- É mentira ! É tudo mentira !!! Quero vê-lo, deixem-me vê-lo ! por favor, me deixem vê-lo…
- Você não pode enxergar por causa do efeito colateral do veneno que tomou ! Isso fez com perdesse permanentemente a visão !
- Gustavo !!! Eu estou aqui, meu amor !!! Me salva, não me deixa aqui sozinha !!!
Lúcia não percebeu que seu grande amor havia morrido… ela não queria aceitar sua morte, pois sabia que sem ele já estava morta, sem ele não valia à pena viver ! Morreu de tristeza …
sexta-feira, 29 de junho de 2007
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